
Mark Twain
“Cada vez mais se exige da escola que compense o fracasso das outras instituições sociais. Pela primeira vez na história, esperamos que dê instrução a todos, e não apenas àqueles cujos pais já tinham sido eles próprios instruídos. E espera-se isso apesar de uma larga massa de crianças ser mantida na extrema pobreza, e apesar de as crianças serem rodeadas, em idades muito precoces, por uma cultura popular ardorosamente anti-intelectual.”
Valia a pena acrescentar que, no geral, as opiniões, discursos, ideias que correm pela televisão e pelos jornais, em vagas mais ou menos periódicas, integram perfeitamente, completando-a, essa cultura popular anti-intelectual. Pelo menos enquanto ignoram, como tendem a ignorar ou a escamotear, os limites impostos à escola pelas próprias exigências que lhe fazem. Dir-se-ia que a escola não cumpre porque se degradou, sozinha e tendo a possibilidade de não se degradar. Como se um grupo de malfeitores perversos tivesse tomado conta dela e a desviasse do seu natural, legítimo e original rumo. Daí o sempre assegurado sucesso dos que polemizam contra caricaturas (o “eduquês”, os manuais medíocres, etc.).
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O mesmo sujeito, entretanto, vira a página e encontra a formulação dos princípios que as escolas, os governantes e os educadores deveriam adoptar. Logo assim:
“Esses princípios centram-se no interesse das crianças e não nos interesses mais vastos da sociedade, das empresas, das igrejas ou, já agora, dos pais. As crianças têm o direito de conhecer um espectro largo de modos de vida e o direito a uma educação que as torne capazes de considerar o seu próprio modo de vida à luz dessas alternativas e, em última análise, de rever ou rejeitar o modo de vida que os pais lhes transmitiriam.”
Não é um belo programa? Dirão que não se pode esperar sem risco de fantasia que a escola pública, sujeita ao poder político, ou a escola privada, sujeita ao lucro, privilegiem interesses que, no fundo, contrariam os de quem vota e paga. Mas é desde logo um bom argumento para ponderar a intervenção ou o direito à intervenção dos pais na escola. Pelo menos. E aliás, a fantasia estrutura um bom princípio de resistência à noção actual e degradada que exige da escola que forme profissionais, cidadãos cumpridores, gente capaz de fazer contas de cabeça.
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Mais adiante, no mesmo livro, mesmo sujeito, etc.:
“Temos perante as crianças tanto o dever de lhes proporcionar uma infância rica e agradável como o dever de as preparar de modo a que possam usufruir de um leque significativo de oportunidades que lhes permita ter uma idade adulta próspera.”
Qualquer dos deveres é irrecusável, e alguns dirão que um implica o outro. Na verdade são distintos: um preserva o estado da infância, outro desvaloriza-o como etapa provisória da formação; um sublinha a actualidade livre de qualquer propósito, outro subordina a instrução à teleologia. A escola não sobrevive a esta contradição sem se degradar.
*Harry Brighouse, On Education, Londres, Routledge, 2006.
Vivemos numa cultura em que os critérios do ser humano, e portanto de participação na comunicação, estão fixados de forma demasiado rígida. Nem incubos, nem súcubos, nem anjos, nem demónios se admitem hoje como interlocutores de pleno direito. Não acho isto nada bem.
*Ordinariamente, chamam-se, à francesa — espirituosos — uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os aplaudem. [Camilo, “Gracejos que matam”, Novelas do Minho.]
Não me espanta a alguma perplexidade. Nem a Perplexidade. Já me causa a mesma perplexidade que estes inquéritos continuem. Acho que alguém disse: se não queres que o teu vizinho te minta, não lhe perguntes nada. Como se a causa da mentira fosse a própria exigência de verdade. (Quem já experimentou garante-me que é assim mesmo, e que o conselho vale para amigos, cônjuges, políticos, colegas de trabalho e irmãos. Mas, por outro lado, sabe-se que há muitos limites para a exigência de verdade. Muitíssimos.) Os inquéritos querem saber, decerto. Curiosamente, ou não, parecem concluir-se sempre com o que já se sabia. Inquire-se para saber o que se desconhece ou para confirmar o que se sabe? Pergunta-se porque se sabe ou porque se quer saber?
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Também pode ser coisa de amorosos. Por exemplo, a esperança. A esperança pode tudo. Os autores destes inquéritos, eternos pacientes dessa loucura mansa que é a dos livros, não se conformam com o desdém da juventude. Em cada golpe de inquérito que desferem vai tudo posto na esperança de que a realidade tenha mudado enfim. Ah, já se lê mais um por cento. Que bom, imagina, mais três por cento disseram ter lido um livro inteiro na semana passada. Fantástico, o número de pessoas que odeiam os livros caiu de x para x — 0,089… E por aí fora. É a esperança, que tudo pode.
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Que mal há na ilusão? Ninguém vive sem ela (ou fora dela). As ilusões estruturam respostas a problemas ou, quando menos, a dificuldades. Deixa-se actuar a ilusão, e quando a estrutura está pronta e a andar na rua (ao contrário do que pretendiam os estudantes de 68), activa-se o antídoto: a realidade contra o desejo, ou coisa assim. O conhecimento vale, então, porque assente na realidade e não no desejo do sujeito, maníaco, louco manso ou amoroso. Quer isto dizer que esses inquéritos, se forem mesmo coisa de mania, loucura mansa, de sujeitos amorosos, tornam-se uma forma muito legítima de propagandear os livros e de difundir a leitura. Pouca gente a ler? Decerto porque se não fizeram suficientes inquéritos aos hábitos de leitura. Longa vida aos sociólogos, não aos espirituosos.
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O que conduz a outro ponto. O que quer que sejam os inquéritos, sempre se presume que as perguntas estão certas. Quero dizer que se presume que, quando se pergunta a alguém “Quantos livros leu este ano?” a pergunta em si mesma não oferece dificuldades de interpretação. Um engraçadinho armado em kantiano poderia, porém, compor um textinho com o título: Resposta à pergunta: o que é ler um livro? Quem havia de o condenar? Decerto logo o sociólogo, sobretudo se caindo na categoria do maníaco, louco manso ou sujeito amoroso: nessas categorias sabe-se o que é um livro, sabe-se o que é ler, sabe-se o que é ler um livro. Fora delas: não se sabe. Já não se sabe. Já não se pode saber. Quantos dos que responderam “nenhum” não presumem na pergunta simplesmente uma certa ideia de livro, uma certa ideia de leitura, uma certa ideia do que seja ler um livro?
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Devíamos fazer um inquérito aos modos dos inquéritos. Não para continuar a ilusão, porque os resultados não seriam melhores. Seriam seguramente piores, e por isto: quem não lê livros não tem noção nenhuma das possibilidades de sentido da expressão “ler livros” na pergunta “costuma ler livros?”
ROSALIND
They say you are a melancholy fellow.
JAQUES
I am so; I do love it better than laughing.
ROSALIND
Those that are in extremity of either are abominable fellows and betray themselves to every modern censure worse than drunkards.
JAQUES
Why, 'tis good to be sad and say nothing.
ROSALIND
Why then, 'tis good to be a post.
Shakespeare [As You Like It, Act 4, Scene 1]
— Já viste quem vai ali? Reparaste? o tipo entorta mesmo os pés…
— É, muito trôpego, coitado! O que me fez mais impressão foi a tristeza dele, não se conforma mesmo, o pobre diabo. É estranho, até, pensando na quantidade de gente que falou, fala e vai continuar a falar dele… O tipo devia sentir-se, sei lá! meio orgulhoso, ou pelo menos popular.
— Não, nem por isso, ele aliás diz que dele mesmo ninguém fala, que falam é do Sófocles.
— Não deixa de ter razão, vendo bem. Não vai ser isso a compensar-lhe a mágoa, afinal.
— Mas também, que diabo! um tipo que matou o pai…
— Ele continua a dizer que não foi ele…
— Porra, já é muita persistência. Não admira que se dê mal com o Sófocles.
— Essa agora?! Tu não sabes que o Sófocles diz o mesmo?
— Quem te enfiou essa treta? O Sófocles não fala, não diz nada, há séculos que sofre da laringe, ou faringe, ou coisa assim.
*Ordinariamente, chamam-se, à francesa — espirituosos — uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os aplaudem. [Camilo, “Gracejos que matam”, Novelas do Minho.]
— Emprego... agora — disse o rabino, coçando a cabeça —, só se for ficares todo o dia à porta do gueto…
— Sozinho? — logo interrompeu o desempregado, que tinha óbvio problema com a rejeição.
— Bom, não necessariamente, posso arranjar-te uma companheira… Olha, serve aquela ali?
— Bem bonita!
— Pois, mas não foi escolhida por isso. Bom, como ia dizendo, vais para a porta do gueto, ficas lá todo o dia, e quando chegar o Messias corres a avisar-nos.
— Não parece difícil. E é trabalho bem pago?
— Não, não recebes nada. Mas é um emprego estável…
(Foto tirada daqui.)
— Mas, pensando bem no assunto, que vantagem vinha de todas as crianças serem poetas ou pintores?
— Quase todas, o Cortázar diz quase todas, não todas… E já te digo uma: crescendo, muitas delas ou mesmo… quase todas, já não teriam necessidade de tentar a poesia e a pintura. Estava feito. Há certas coisas por aí, tão execráveis, que no entanto se admiravam bem na infância. As crianças não precisam de criar obra, é a grande liberdade delas, só têm de fazer duas coisas: crescer e aprender. Crescer e aprender.
— Falas com acerto, ó Sócrates. Mas não me convences…
— Calha bem falares do Sócrates, porque podes ler a frase do Cortázar como, digamos, uma metonímia. Não apenas poetas e pintores, mas também filósofos, sobretudo filósofos. Crescer e aprender implica fazer perguntas. Ora a maldita instrução primária…
— ensino básico, maldito ensino básico…
— Ou isso. O maldito ensino básico domestica a arte da pergunta, treina as crianças para fazerem apenas perguntas úteis.
— Ora, alargas tanto que perdes de vista o alvo. Isso é o que faz todo o ensino. Não te lembras do que nos disse há dias o Bertrand Russel? O homem não nasce estúpido, nasce ignorante: a educação é que o faz estúpido.
— Espreitei agora mesmo e… viste isto?
— Vi, claro. Não estamos sós, hein?
— É verdade. Maldita instrução primária.
— Básico…
— O quê? Básico? quem? eu?
— Já não se diz instrução primária. Agora chamam-lhe ensino básico.
— Não deve ser do meu tempo, mas o modelo é o mesmo: um primário não é um básico? E um gajo um bocado básico não é um gajo um bocado primário?
— Pois é, tens razão. Mas fica bem na mesma: maldito ensino básico.
— Maldito!
— Encontrei ali um gajo que me disse, sem mais nem menos, que ninguém entende nada da República do Platão enquanto não a considerar um livro organizado em torno do problema de saber como evitar o desespero. Diz que leu isso num autor cujo nome lhe escapa, o palerma...
— Olha que, assim de repente... até me parece que, com o tempo, me podia afeiçoar a essa ideia...
— ... de repente... com o tempo... não há aí contra-senso?
— Não, nada disso. Sabes... o que mata não é o cancro, a tentação do abismo, a doença auto-imune, o acidente de trabalho, o aborto às onze semanas — o que mata é a falta de esperança.
— Isso é lindo, sim. Mas... e o sismo?